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05/05/2017

Os desafios da Inteligência Artificial




Martin Seefelder (*)



A "Inteligência Artificial" promete revolucionar a forma como trabalhamos atualmente. Assim como as demais tecnologias da transformação digital, a IA não é "novidade" no nosso dia a dia, mas apenas nas últimas duas décadas foram resolvidos problemas que impactavam a performance de seus sistemas operacionais. Simplificadamente, tais sistemas são baseados em algoritmos que "aprendem" padrões e, depois, são capazes de reconhecê-los e fazer predições com base em um conjunto incompleto ou imperfeito de dados. Por exemplo, sistemas convencionais conseguem facilmente reconhecer textos escritos por editores virtuais, porém apenas os "inteligentes" são capazes de identificar algo escrito a mão por qualquer pessoa, apesar das incontáveis variedades de caligrafias existentes.

Outro grande avanço nos sistemas de IA das últimas décadas foi no campo de Machine Vision (Visão de Máquina), no qual é possível para um computador distinguir, por exemplo, um gato em uma foto sem a ajuda de ninguém. Esta atividade, trivial para os seres humanos, é realmente desafiadora e complexa para uma máquina. A combinação dessas duas faculdades de aprendizado e visão das máquinas, junto com tecnologias como a Internet das Coisas, está abrindo todo um mundo de novas possibilidades tecnológicas, que vão desde a compreensão de conversação natural até a direção autônoma de veículos, algo que já está se tornando realidade nos Estados Unidos.

É possível notar como a Inteligência Artificial está avançando de forma rápida e, muitas vezes, imperceptível ao fazer uma pesquisa no Google com o título "Strike against automation". O primeiro resultado mostrado é uma notícia sobre uma greve de operários britânicos contra a implantação de máquinas modernas em suas fábricas. Nada demais, não é? A não ser pelo fato de a reportagem ser de um jornal impresso de Ottawa, no Canadá, de 1956, e que foram algoritmos de inteligência artificial que conseguiram "ler" e "compreender" que este artigo, outrora perdido no tempo, se encaixava perfeitamente na busca feita.

A Inteligência artificial é tão versátil que pode ser aplicada em diversas situações, mas é possível separá-las em duas categorias básicas: aquela onde a IA irá complementar o raciocínio das pessoas e outra na qual ela substituirá o intelecto humano por completo. No primeiro caso, estão reunidas as ocupações que requerem algum tipo de interatividade ou criatividade de uma pessoa. Um artigo publicado por James Guszcza, na Deloitte University Press, mostra que mesmo os algoritmos preditivos mais simples obtêm melhores resultados que especialistas humanos em uma variedade de assuntos, como na previsão de como um paciente reagirá a determinado tratamento médico. Mesmo em trabalhos que são inerentemente criativos, como a arquitetura, sistemas inteligentes estão sendo desenvolvidos para reduzir o tempo de conclusão de um projeto.

Mas é na segunda categoria, onde os trabalhos são regidos por processos, como a maioria das funções de escritório, ou que dependem da análise de informações para tomadas de decisões, como análise de perfil de risco para seguradoras, que a IA tem o potencial de realmente transformar o mundo em que vivemos. E exemplos dessas aplicações não param de aparecer, desde sistemas que conseguem automatizar a análise da declaração de renda dos clientes de uma empresa de contabilidade até um caminhão de entrega de carga totalmente mecanizado.

Fica claro que, cada vez mais, a Inteligência Artificial está caminhando para tornar as oportunidades de trabalho para o ser humano cada vez mais escassas. Existe assim um risco de se criar um abismo entre um grupo de profissionais altamente qualificados e bem remunerados e outro com baixa especialização e renda. A faixa intermediária, da qual é composta a maior parte da classe média, está altamente ameaçada. Este desequilíbrio é tão preocupante que levou algumas das mentes mais brilhantes da atualidade, como o astrofísico Stephen Hawking e o empreendedor Elon Musk, a assinarem uma carta advertindo sobre os riscos do avanço da utilização da IA e seus possíveis impactos na sociedade. Nesta carta, eles afirmam que precisam ser estabelecidas prioridades na pesquisa de IA para garantir que seus benefícios sejam maximizados.

Existe ainda um longo caminho a ser percorrido até que novas tecnologias inteligentes atinjam seu verdadeiro potencial, principalmente em países como o Brasil, que possui déficit tecnológico e abundância de mão de obra barata. Porém, uma vez acontecendo, precisaremos nos adaptar a um mundo novo e estar dispostos a abraçar às inovações tecnológicas, uma vez que quem não estiver liderando a mudança, poderá ser atropelado por ela...
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(*) O autor é gerente sênior da Deloitte Brasil.

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