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Feiras devem privilegiar mercado interno em 2010

Se foi ruim para a maior parte dos setores produtivos, o ano de 2009 terminou com bons resultados para o segmento de feiras de negócios. De acordo com Armando Campos Mello, presidente executivo da União Brasileira dos Promotores de Feiras (Ubrafe), a receita do setor ficou em R$ 3,4 bilhões, um valor bastante próximo do período pré-crise, e o número de expositores e de visitantes também foi mais ou menos igual ao dos últimos anos: 35 mil empresas expositoras e 4,6 milhões de visitantes.
            “Com a crise internacional, as fabricantes mais voltadas para o mercado externo resolveram voltar-se para o consumidor doméstico, de modo a compensar as perdas em receita de exportação”, explica Mello. “Como não existe uma maneira mais rápida e eficiente de tornar um produto visível para a clientela do que exibi-lo em uma feira, as fabricantes que antes não sentiam necessidade de participar desta vez o fizeram, suprindo a lacuna criada pelos que decidiram deixar 2009 passar em branco”.
            Para 2010, a expectativa de Mello é de prolongamento desta tendência – já que o mercado internacional ainda não se recuperou totalmente – e o fortalecimento das feiras regionais, que já vinham crescendo com a desconcentração industrial observada desde a década de 1980 e com o surgimento de fortes (e cobiçados) pólos de consumo em praticamente todas as regiões do país.
            A seguir, trechos da entrevista.

Empatando o jogo

“Um dos poucos setores da economia brasileira que se mantiveram à tona durante a crise de 2009 foi o de feiras e exposições. Nenhuma das 172 feiras promovidas pelos associados da Ubrafe foi cancelada. A receita global, incluindo locação de espaços, hospedagem, serviços, transportes, ficou em R$ 3,4 bilhões, um valor bastante próximo do período pré-crise, e o número de expositores e de visitantes também foi mais ou menos aquele dos últimos anos. Foram, no total, 35 mil empresas expositoras – representando 180 mil marcas – e 4,6 milhões de visitantes.
Devemos esses bons números ao segundo semestre de 2009. Obviamente, o primeiro trimestre do ano passado também foi muito fraco para nós, por causa da herança de 2008. Foi um período tumultuado, de indefinição, de mercado internacional confuso, e as empresas preferiram permanecer na defensiva, esperando para ver o que ia acontecer. Mas houve uma pequena melhora já no segundo trimestre e uma fantástica alavancagem durante todo o segundo semestre, que foi mais do que suficiente, senão para virar o jogo, pelo menos para o setor conseguir o empate”.

Olhando para dentro

“As fabricantes mais voltadas para o mercado externo perceberam, já no final do primeiro trimestre de 2009, que a crise acabaria mais rapidamente no Brasil do que nos tradicionais mercados norte-americano, europeu, asiático e latino-americano. E resolveram voltar-se para o mercado interno, de modo a compensar as perdas em receita de exportação. Como não existe uma maneira mais rápida e eficiente de tornar um produto mais visível para a clientela do que exibi-lo em uma feira de negócios, as fabricantes que antes não sentiam necessidade de participar, desta vez o fizeram.
Praticamente todas as nossas feiras e exposições registraram uma renovação de expositores acima do normal no segundo semestre de 2009, compensando a defecção dos expositores tradicionais que decidiram não participar, fosse por contenção de despesas, fosse por puro exercício de cautela. Por causa do segundo semestre, a renovação dos expositores no ano passado foi acima das médias históricas”.

Tábua de salvação

“Na verdade, é nos momentos de crise que os empresários percebem a extrema utilidade da feira de negócios. No fundo, uma feira de negócios não deixa de ser uma mídia presencial, que tem sobre as outras mídias a vantagem de abrir para o fabricante a possibilidade de também poder negociar o seu produto durante a apresentação dele, sem maior esforço comercial. É uma mídia que dá igualmente respostas imediatas sobre as necessidades atuais do mercado, sobre a capacidade de compra dos clientes, sobre expectativas de investimentos. Serve também como barômetro. Aliás, tem empresas que faz tempo já descobriram tudo isso, e são tão convictas da eficácia dessa mídia que a sua única ação de marketing é participar de feiras de negócios.
Mas ela também nunca deixa de ser apenas uma feira, na acepção clássica do termo – um lugar de encontro, de troca, de conversas, onde as pessoas ficam sabendo das novidades e se informam sobre o seu contexto, saem do isolamento, dissipam os maus pressentimentos ou os confirmam, armando-se para enfrentar melhor as eventuais situações difíceis. A feira tem essa função desde a Antiguidade. É certo que parte do clima de otimismo que voltou a tomar conta do empresariado brasileiro no segundo semestre do ano passado deve ser debitada às trocas de informações realizadas durante as feiras. Elas deixaram claro que a crise não estava tão feia assim, pelo menos para o Brasil”.

Ano tranqüilo

“Esperamos um 2010 bastante tranqüilo e promissor. A tendência observada em 2009 – de maior participação dos exportadores nas nossas feiras – deve se aprofundar. Embora em recuperação, os mercados estrangeiros ainda não voltaram ao ponto em que estavam antes da crise, e devem passar este ano igualmente sem importar muito, com a provável exceção de commodities agrícolas e minerais. Os exportadores industriais brasileiros terão de continuar de olho no mercado interno para não compartilhar com países como Estados Unidos, Alemanha, Itália, Japão, a própria Argentina, um cenário econômico de cores ainda algo sombrias.
As nossas projeções apontam para um resultado na área de feiras de negócios quase idêntico ao de 2009, o que será muito bom. Esperamos uma receita global de R$ 3,5 bilhões, 4,65 milhões de visitantes, 38 mil expositores, que estarão representados em 180 mil marcas. Números praticamente iguais aos de 2009, portanto. Mas acreditamos que receberemos mais empresas e compradores estrangeiros. Em 2009, vieram para cá 5,5 mil empresas e 45 mil compradores credenciados. Neste ano, esperamos 7,8 mil empresas e os mesmos 45 mil compradores. Será uma espécie de preparação para a retomada plena do intercâmbio e das exportações industriais em 2011”.

Pé na estrada

“De outro lado, neste ano de 2010 deveremos observar um fortalecimento das feiras regionais. Devagar e sempre, essas feiras vêm sendo incrementadas desde os anos 1980, devido à desconcentração industrial do país – hoje, temos indústrias em todas as regiões e estados brasileiros – e ao conseqüente crescimento dos mercados consumidores locais. Esse movimento foi reforçado com a recente ascensão econômica das classes C e D, que alçou milhões de pessoas para o mercado de consumo e beneficiou desde o fabricante ao atacadista, ao fornecedor de insumos. Essa ascensão tem se dado em todo o Brasil.
Antes da crise, quem queria ao mesmo tempo mostrar os seus produtos para o mercado interno e para os compradores estrangeiros, vinha para São Paulo, ou para o Rio de Janeiro. Esse ano, com a esqualidez do mercado externo, e com a força que o mercado interno está demonstrando, as feiras regionais certamente serão enfatizadas na pauta dos departamentos de marketing. É bem possível até que várias empresas repliquem sua participação em várias feiras espalhadas pelo país, e que essa tendência seja inclusive parcialmente consolidada daqui para frente. Capitais cujas feiras também já contam com uma presença razoável de compradores estrangeiros – como Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Goiânia – deverão ser as mais beneficiadas.

Centro nervoso

“Obviamente, São Paulo deverá ficar novamente com a parte do leão em 2010. Além de a cidade ter maior tradição nessa área de feiras de negócios, é a que oferece a melhor e a maior infra-estrutura para eventos no país. Não é por acaso que, das 172 feiras promovidas pelos associados da Ubrafe, 120 sejam promovidas em São Paulo. Isso equivale a 75% do mercado brasileiro. Da área total disponível para a realização de feiras no Brasil - 2,6 milhões de m2 - nada menos do que 2,1 milhões ficam na cidade.
Do total de 4,6 milhões de visitantes em 2009, um contingente de 3,2 milhões veio participar de feiras paulistanas, ajudando São Paulo a recolher uma receita de R$ 2,9 bilhões nesse segmento, de um montante de R$ 3,4 bilhões no país inteiro. São Paulo é, de fato, a verdadeira capital brasileira de feiras e eventos. Promove 90 mil eventos por ano, ou um evento a cada seis minutos, e uma feira de negócios a cada três dias. É um setor que se tornou tão importante para a cidade que ele, sozinho, já responde por 500 mil empregos diretos e indiretos, dentro das mais variadas e inimagináveis atividades. 
 

Mercado maduro

“As feiras de negócios constituem um mercado plenamente maduro no Brasil. Disso dá conta a segmentação delas, cada vez mais palpável: do salão do automóvel, por exemplo, nasceu o salão de autopeças, e deste, o salão de autopeças para veículos pesados. As feiras do tipo universal de informática e de metal-mecânica, e de construção civil e de têxteis e confecções, também deram origem a várias crias. Essa segmentação permite ao expositor focar-se com exatidão na sua clientela, com enorme retorno em termos de custo e benefício. E facilita muito também a vida do visitante.

É uma distância imensa da primeira feira de negócios promovida no Brasil, que aconteceu em 1954, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, nas comemorações do Quarto Centenário da fundação da cidade. Essa feira foi tão multissetorial que um estande mostrando uma turbina de usina hidrelétrica tinha por perto um outro mostrando gaiolas de passarinhos. Mas conseguimos evoluir, e ainda mantendo um senso refinado do que é uma cadeia produtiva. Em todas as feiras do Brasil, há espaço tanto para o fabricante de máquinas como para o produtor de arruelas, por exemplo. Nesse aspecto, a feira de negócios é uma mídia inclusive democrática, não distinguindo o grande do pequeno. (Alberto Mawakdiye)

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