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“O Brasil está na adolescência empresarial”

Se comparados a uma empresa, os Estados Unidos já teriam ultrapassado a fase de plenitude, enquanto o Brasil estaria vivendo a plena fase da adolescência. É quando a empresa começa a transitar de um estatuto familiar para o profissional, a implantar novos processos, a redefinir a sua missão, os valores, a visão.
“Neste estágio - de crescimento e redefinição da identidade - costumam ocorrer muitas brigas entre sócios e administradores, muita luta pelo poder. É uma fase conflituosa como a adolescência costuma ser”, diz o consultor de negócios Marcos Morita (foto), mestre em Administração de Empresas, professor da Universidade Mackenzie, de São Paulo, e professor tutor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Rio de Janeiro.
Especialista em estratégias empresariais, Morita também é colunista e palestrante. Ainda atua há mais de quinze anos como executivo em empresas multinacionais.
         A seguir, trechos da entrevista.

         Metal Mecânica - Em um interessante artigo recentemente publicado na imprensa, o sr. comparou os Estados Unidos com uma empresa privada, e pelo que se lê, esta não seria uma empresa das mais saudáveis. Ela estaria endividada, com um portfólio de produtos estagnado e avessa às inovações.
E o Brasil? Como se sairia em um comparativo como este?
         MARCOS MORITA - Partindo do princípio: há um trabalho clássico do israelense Ichak Adizes sobre o ciclo de vida das organizações. A empresa, ali, é comparada a um organismo vivo, com seus diversos estágios de crescimento, que poderíamos reduzir a seis: a infância, ou desbravamento; o “faz-faz” - ou pré-adolescência; a adolescência; a plenitude; a aristocracia; e o declínio. Aplicando estes parâmetros à economia norte-americana, é mais ou menos evidente que ela se encontra hoje na fase da aristocracia, que sucede a plenitude e antecede o declínio. Não é uma posição confortável.
         O Brasil estaria ainda na fase da adolescência, no terceiro estágio. É quando a empresa começa a transitar de um estatuto familiar para o profissional. Quando começa a implantar novos processos, a profissionalizar a gestão, a redefinir a sua missão, os valores, a visão. Neste estágio - de crescimento e redefinição da identidade - costumam ocorrer muitas brigas entre sócios e administradores, muita luta pelo poder. É uma fase conflituosa como a adolescência costuma ser.

         Metal Mecânica - E também perigosa, às vezes...
         MORITA - Sem dúvida. Muitas empresas soçobram quanto tentam efetuar esta transição.  Porque a verdade é que, se o adolescente busca a sua missão, os seus valores, a sua visão, é porque ainda não os têm muito claros. É o que acontece com o Brasil. O país partiu de uma economia fechada para uma economia aberta há não mais de 20 anos. A abertura para o comércio exterior, para a internacionalização, deu-se nos recentes anos 1990. Teve de se haver com o aumento da concorrência, não só internacional, mas também no mercado doméstico. Na década de 1980, tínhamos quatro montadoras e 26 modelos de automóveis. Hoje temos cerca de 50 montadoras participando do mercado e uns 600 modelos.
         É preciso saber o que fazer neste novo cenário. E nós ainda não sabemos direito. Sequer conseguimos perceber que uma empresa de capital aberto tem obrigações que uma empresa fechada não tem. O que de certa forma é natural, porque na adolescência a organização passa a dedicar menos atenção aos clientes externos e a priorizar mais as suas próprias necessidades. Não percebe que, por vezes, está crescendo antes por injunções externas do que por ela mesma, mais por sorte do que pelos próprios méritos. Não faz nenhuma questão de seguir manuais de ética - do que o Congresso Nacional não nos cansa de dar exemplos. Enfim, o adolescente tem a vocação, mas nem de longe pode afirmar que a cumpriu.

         Metal Mecânica - Deste ponto de vista, que país está em fase mais perigosa, o Brasil ou os Estados Unidos?
         MORITA - Tanto a adolescência como a aristocracia são duas fases bastante perigosas. Mas talvez a aristocracia seja um pouco mais, por às vezes ser marcada pelo pessimismo. Hoje, nos Estados Unidos, é difícil ser otimista, com tanta redução de benefícios, tanto corte de gastos. O país, que sempre atraiu os olhos dos mais famintos consumidores do mundo, vive um momento de grandes incertezas e com um endividamento em escala jamais vista.
A possibilidade de os Estados Unidos deixarem de honrar seus compromissos financeiros era algo impensável, até pouco tempo atrás. O fraco acordo, conseguido pelo presidente Barack Obama com o Congresso para o aumento do teto da dívida, teve como consequência os menores níveis de aprovação do governo por parte dos americanos. Para completar, a notícia de rebaixamento dos títulos pela agência Standard & Poors levanta a possibilidade - ainda que remota - de um eventual calote.
Ninguém lá aposta muitas fichas no crescimento. Já o Brasil vive outro momento. A adolescência, embora em geral marcada por muita ansiedade e confusão, é, entretanto, também uma fase de otimismo, de confiança no futuro. O Brasil está feliz com o crescimento atual e aposta que continuará crescendo.

         Metal Mecânica - A passagem da aristocracia para o declínio é inevitável? O destino dos Estados Unidos é mesmo a decadência?
         MORITA - De forma alguma. Comparados a uma empresa, os Estados Unidos são tradicionalíssimos e têm mais de duzentos anos de existência. São financeiramente sólidos - apesar de tudo - e respeitados em todo o mundo. Atuam em setores altamente competitivos, são líderes de mercado ou possuem grande participação na maioria dos segmentos. Apesar do decréscimo na taxa de inovação e desenvolvimento nos últimos anos, seus produtos ainda são muito desejados por clientes que procuram segurança e alto valor de revenda.
O principal problema é o de gestão. Ainda na comparação com uma empresa, o antecessor do atual presidente permaneceu no comando por duas gestões, sendo conhecido pelo jeito rústico, inabilidade política e desconhecimento da geografia - assim como grande parte dos americanos médios. Sua eleição, contestada na sua legalidade, levou-o à cadeira principal em um cenário dividido entre os acionistas. Logo no início do mandato, foi surpreendido por graves problemas de origem externa. Sabotagens e ataques a algumas de suas instalações espalhadas ao redor do mundo provocaram medo e insegurança nos funcionários, clientes, fornecedores e acionistas.
         Mas ele soube aproveitar-se da situação, conseguindo até aumentar sua popularidade. Com um discurso demagógico, decidiu pela procura dos culpados, investindo bilhões de dólares em projetos de longo prazo, os quais, além de não relacionados à melhoria da eficiência da empresa, tinham retornos altamente questionáveis. Conseguiu aprová-los em meio à confusão e ao medo reinante na instituição. Com o passar dos anos tornaram-se claro sua inviabilidade, porém interrompê-los sairia mais oneroso que terminá-los.

         Metal Mecânica - Ele - George W. Bush - tornou os americanos reféns do seu programa...
         MORITA - Sim. E para financiá-lo recorreu aos lucros acumulados, lançou ações e debêntures no mercado, assim como buscou financiamentos junto de instituições financeiras.  Apesar das taxas de juros atraentes, por causa da baixa taxa de risco, o índice de liquidez da empresa começou a se deteriorar. Note-se que quanto maior o índice de liquidez, maior a capacidade da empresa em honrar seus compromissos.
         Para piorar ainda mais o cenário, uma importante parcela dos clientes tornou-se inadimplente, consequência de uma política de crédito frouxa, a qual concedia aumento nos limites sem o devido lastro. Mais uma vez sua administração teve que recorrer ao capital de terceiros, aumentando sua alavancagem até níveis críticos, comprometendo ainda mais a liquidez. O presidente anterior deixou a empresa pela porta dos fundos, com os piores níveis de aprovação jamais vistos na história.

Metal Mecânica - Só que o seu sucessor não conseguiu alterar este quadro com a intensidade necessária.
         Morita - O novo presidente trazia muita esperança aos funcionários e acionistas. Além de jovem e negro, algo raro em uma multinacional americana, tinha uma formação de primeira linha e grande carisma. Transitava de maneira fluida, estivesse entre os diretores ou na linha de produção. Seus discursos eram concorridos, arregimentou admiradores e respeito.
         Mas passada a fase de lua de mel, debruçou-se sobre os problemas gigantescos da empresa, que fizeram com que perdesse parcela significativa das vendas. Para tentar reerguê-la, ele abandonou algumas linhas de produtos, fechou fábricas e demitiu milhares de funcionários. Teve que rever investimentos e projetos do antecessor, reduzindo-os na medida do possível.
Apesar dos esforços empreendidos, novos concorrentes começaram a ganhar mercado, aproveitando a inércia e a fragilidade da empresa, oferecendo produtos e serviços confiáveis e também seguros, ameaçando sua hegemonia mundial. Como uma bola de neve, o grau de endividamento aumentava, à medida que venciam os compromissos financeiros com seus credores, os quais começavam a duvidar de sua capacidade de pagamento. Em reunião com os acionistas, o presidente solicitou um aumento no teto do endividamento para poder continuar investindo, cujo resultado foi mal recebido pelos analistas financeiros. É o lugar onde a empresa está hoje.

Metal Mecânica - Como Obama poderá resolver o problema?
MORITA - Ele está numa dicotomia entre aumentar fortemente as vendas ao mesmo tempo em que deve reduzir os gastos, cortando benefícios e projetos, comprometendo sua reeleição para o próximo ano. O ideal seria que o país investisse e se concentrasse no que sabe fazer melhor. Abandonasse as ilusões oferecidas pelo estágio da aristocracia.
A história dos Estados Unidos é recheada de exemplos de empreendedorismo e inovação, com produtos, serviços e soluções que tanto encantaram o mundo no século passado. Com um portfólio renovado poderão novamente se diferenciar da concorrência, com a qual já disputa palmo a palmo os consumidores, e muitas vezes em seu próprio quintal. O mundo aguarda ansioso por sua pronta recuperação. (Alberto Mawakdiye)

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