EDITORA IPESI – METAL MECANICA – ELETRONICA E INFORMATICA

 

“O Brasil está perdendo a corrida”

 

                           Um estudo divulgado pela Fiesp no último mês de novembro aponta que o Brasil melhorou sua nota no Índice de Competitividade das Nações 2011, mas permaneceu na 37ª. posição entre os 43 países analisados. E está classificado no último quadrante, com competitividade considerada baixa. Ficou atrás de países como Grécia, Itália, Polônia e Portugal e até de alguns da América Latina, como Argentina, Chile e México.
            “Uma das razões é que a indústria brasileira é ainda pouco inovadora”, diz o vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), Guilherme de Marco Lima (foto). “Não mais do que 38% das empresas brasileiras inovam. Mas só 4% destas inovam com produtos novos, mesmo para o mercado nacional. Não é à toa que o país vem perdendo cada vez mais espaços no mercado doméstico para os produtos estrangeiros”.
            Lima, que é também executivo da Whirpool/Embraco, sediada em Santa Catarina, dirige uma entidade cujo objetivo é estimular a inovação tecnológica dentro das empresas. Cacife para tanto a associação tem: dois terços das empresas que inovam de forma comprovadamente contínua no país fazem parte dos quadros da Anpei. O que significa dizer que a entidade reúne nada menos do que dois terços da inovação privada brasileira.
A seguir, trechos da entrevista.

         METAL MECÂNICA – Já não resta dúvida de que o Brasil atravessa um período de desindustrialização. De acordo com a Fiesp, a indústria respondia por cerca de 30% do PIB 15 anos atrás. Hoje, responde por 15%. Mais investimentos em inovação tecnológica teriam o dom de pelo menos começar a reverter este quadro?
        GUILHERME DE MARCO LIMA - Sem dúvida. A participação da indústria no conjunto da economia caiu porque o setor vem perdendo competitividade. E a inovação é um dos pilares fundamentais da competitividade.  
É claro, vêm pesando também outros fatores, como câmbio desfavorável, juros altos, carga tributária elevada, crédito caro, baixo nível de poupança interna, baixo investimento, elevados gastos governamentais, infraestrutura deficiente. Mas eles não seriam tão influentes se a indústria brasileira se dedicasse um pouco mais à inovação.

METAL MECÂNICA - Os investimentos nessa área são tão pequenos assim?
LIMA - Bem, para se ter uma idéia, 38% das empresas brasileiras inovam. Mas só 4% destas inovam com produtos ou serviços novos para o mercado nacional - eu disse mercado nacional, não mundial. A indústria brasileira não está inovando nem em nível nacional. Não é à toa que vem perdendo cada vez mais espaços no mercado doméstico para os produtos estrangeiros.

METAL MECÂNICA - As outras 34% investem em quê?
LIMA - Elas até inovam em produtos e processos. Mas com os olhos voltados para elas mesmas, não para o mercado. Um exemplo: compram uma máquina mais moderna, que, no entanto, a maioria dos concorrentes já possui; lançam produtos que não faziam parte do portfólio, mas que estão disponíveis há tempos no mercado, sob outras marcas.
         Ou seja: trata-se de uma inovação do tipo incremental, mas intramuros. Para o mercado, é como se a empresa não tivesse inovado nada. E na verdade não inovou nada mesmo, no máximo somente se atualizou.
        
         METAL MECÂNICA - A falta de maior apoio governamental não teria um pouco a ver com isso?
         LIMA - Isso podia ser verdade algumas décadas atrás. Hoje não é mais. Os recursos financeiros que atualmente o governo disponibiliza para inovação chegam a R$ 7 bilhões, em subvenções, empréstimos subsidiados etc. Hoje, há mais de 60 instrumentos de fomento em inovação no Brasil.
Os marcos legais foram muito aperfeiçoados também. Já não há tanta burocracia como antes para conseguir empréstimos, linhas de financiamento, estabelecimento de parcerias com universidades e institutos de pesquisa.
         A massa crítica de mestres e doutores também cresceu. O Brasil está formando, atualmente, mais de 35 mil mestres por ano, nas mais diferentes áreas. E a quantidade de artigos científicos publicados vem aumentando de duas a cinco vezes mais do que a média mundial.

         METAL MECÂNICA - Enfim, o arcabouço para a inovação está montado...
         LIMA - Sim. E a pergunta que fica, é: se temos tudo, porque inovamos tão pouco? Trata-se sem dúvida de um problema cultural dos empresários brasileiros. De modo geral, eles parecem ter enorme dificuldade para estabelecer estratégias de longo prazo baseados em inovação. As ações parecem visar sempre o imediato.
        
METAL MECÂNICA - Não seria porque eles têm antes de lutar para sobreviver neste mundo globalizado, por operarem com custos bem menos competitivos do que os da China, por exemplo?
         LIMA - A perda de competitividade, neste contexto, é antes causa do que consequência. Certamente os empresários brasileiros trabalham com custos mais altos. E têm realmente dificuldades para sobreviver - do que a ainda elevada taxa de mortalidade das pequenas empresas nos primeiros anos de vida deixa muito claro.
Só que, quando a empresa inova, quando lança produtos ou serviços inovadores, dificilmente ela não consegue abrir novos mercados, aumentando a produção. E se o volume de produção aumenta há uma natural redução de custos.
         Enfim, a inovação tecnológica pode ser um fator de redução de custos tanto do ponto de vista estritamente tecnológico - via novos produtos ou aperfeiçoamentos incrementais de fato na linha de produção - como também mercadológico.

         METAL MECÂNICA - No final das contas, a inovação tecnológica serviria para tornar as empresas de um país mais competitivas do que os da concorrência?
         LIMA - Sim, principalmente isso. Porque a falta de competitividade também é sempre relativa. Uma economia pode se mostrar mais ou menos competitiva comparando-se as curvas do seu desempenho em diferentes momentos, mas ela sempre será mais ou menos competitiva principalmente em relação a outras economias. E é essa comparação que importa, no fundo.
        
         METAL MECÂNICA - Um estudo divulgado recentemente pela Fiesp mostra exatamente este quadro. O Brasil melhorou sua nota no Índice de Competitividade das Nações 2011, mas permaneceu na 37ª. posição entre os 43 países analisados. Ficou atrás de países como Argentina, Grécia, Itália, Polônia, Chile, México e Portugal, e está classificado no último quadrante, com competitividade considerada baixa. Mesmo aqueles países que estão no centro da crise internacional conseguiram se posicionar na frente do Brasil.
         LIMA - Sem contar que há países que estão se tornando mais competitivos que o Brasil com muito maior rapidez. Não perdemos a corrida apenas para a China e a Coréia do Sul. Estamos agora perdendo para muitos países da América Latina também. O ranking da Fiesp demonstra este fato com ênfase.

         METAL MECÂNICA – Mas como o Brasil poderia sair deste impasse?
         LIMA - Pensar mais no longo prazo seria fundamental. O modelo chinês devia ser observado de forma mais atenta - o que não significa que deveria ser copiado. As indústrias chinesas operam dentro do conceito do ‘self inovation’, ou inovação autônoma: ali os produtos e as marcas são construídos aos poucos. A China mal tinha indústria automotiva na década de 1990. Hoje, ela participa do mercado internacional com marcas que se tornam cada vez mais conhecidas, como Chery, JAC e outras.  
O Brasil não precisaria entrar na disputa de marcas, necessariamente - embora o país esteja na moda e criar as suas próprias grifes talvez nem fosse muito difícil. As inovações tampouco precisariam ser radicais, não precisariam caminhar no sentido da invenção.
         Basta pensar na lâmpada elétrica, um bem que foi inventado há mais de cem anos. Quantas inovações a lâmpada de Thomas Edison já recebeu desde 1879? E todas elas enriqueceram as empresas que as fizeram. Foram típicas inovações incrementais, que estão acessíveis a quaisquer países que queiram apostar nelas.   
(Alberto Mawakdiye)


             

 
fim
Rua Espartaco, 213 – CEP: 05045-000 – Vila Romana– Sao Paulo – SP – Brasil/ Fone: 3670-1677
ipesi@ipesi.com.br
Webmaster: Bros Digital