EDITORA IPESI – METAL MECANICA – ELETRONICA E INFORMATICA

 

 “A infraestrutura é o grande gargalo”

O professor Otto Nogami (foto), economista com extenso currículo acadêmico e consultor de várias empresas e entidades como a Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei) - não está nada confiante num grande crescimento da economia em 2012.
Para ele, o crescimento será de no máximo 3,5%. Mas a principal razão não será a crise internacional, os juros, a taxa de câmbio ou os encargos do Custo Brasil. Mas os gargalos que continuam se multiplicando na infraestrutura.
“Esses gargalos já se tornaram um poderoso fator de desestímulo para os investimentos diretos, inclusive do exterior”, diz Nogami. “Fala-se muito no país do modelo econômico chinês, mas o que a China tem realmente de bom o Brasil parece não querer copiar. A China já faz alguns anos é um canteiro de obras de infraestrutura. Essa é uma das razões do seu fantástico crescimento”.
A seguir, trechos da entrevista.
        
Metal Mecânica - O cenário econômico mundial continua preocupante, com os Estados Unidos e o Japão recuperando-se mais lentamente do que se esperava e a Europa mergulhada em uma crise que parece longe de terminar.
São fatores que podem esfriar a economia brasileira em 2012?
Otto Nogami - Até certo ponto sim, já que afetarão o fluxo do comércio internacional e reduzirão os investimentos. Mas o Brasil está relativamente descolado, por ter um mercado interno em ascensão e estar com as suas finanças em ordem. Não deverá crescer de 4% a 5% como o governo esperava, o crescimento será de no máximo 3,5%, que, no entanto, é um índice bastante razoável, no final das contas.
Mas o principal motivo para o crescimento menor do Brasil em 2012 será, penso eu, os gargalos que continuam se multiplicando na infraestrutura. Tais gargalos inibirão os investimentos mais até do que o câmbio, a taxa de juros, os impostos e os encargos sociais que também fazem parte do chamado Custo Brasil.

Metal Mecânica - São fatores pesados de desestímulo.
Nogami - Sem dúvida. As indústrias, por exemplo, estão cada vez mais ressabiadas diante dos déficits que se acumulam em transportes, armazenamento, energia, e do pouco que está sendo feito para reduzi-los. Poucas hoje querem correr o risco de montar negócios não competitivos por razões que elas não podem contornar.
A ironia é que essa postura é do agrado do governo. Durante o último ano do governo Lula, em 2010, quando o Brasil cresceu mais de 7%, os sinais de superaquecimento ficaram evidentes. A demanda explodiu, e isso, sem a contrapartida de uma ampliação significativa da produção e de uma infraestrutura e um sistema logístico eficientes, fez ressurgir a inflação.
O novo governo teve até de tomar medidas pontuais, com certo sabor de urgência, para refrear o crescimento, que agora estão sendo aos poucos atenuadas. Fez o certo, a meu ver, pois a prioridade tem de continuar a ser o controle da inflação.

Metal Mecânica - A crise da infraestrutura também está afastando os eventuais investimentos diretos estrangeiros?
Hoje, eles parecem se restringir basicamente ao capital chinês, mas a maioria deles está na área de commodities. Um setor que, aliás, depende profundamente de uma boa infraestrutura.
Nogami - E não é à toa que os chineses têm investido também na extensão da malha ferroviária brasileira, no melhoramento de alguns portos. É a prova pelo avesso de que a nossa infraestrutura é ruim.
É óbvio que a infraestrutura deficiente está desestimulando os investimentos estrangeiros diretos na indústria. Os poucos que têm sido executados - como as de algumas montadoras ou indústrias pesadas, inclusive da China - estão se ancorando em gordos benefícios fiscais, o que talvez não seja uma boa idéia para o país, em termos de arrecadação. O que se ganha de um lado, perde-se de outro.

         Metal Mecânica - De qualquer forma, a crise que vem afetando os países desenvolvidos já não seria um impeditivo para inversões no Brasil?
Nogami - Não necessariamente. Há um fator agravante que vem passando despercebido nas análises feitas sobre a crise nas economias desenvolvidas. Estados Unidos, Europa e Japão são países e regiões que já atingiram o máximo desenvolvimento possível, a plenitude econômica. E que têm populações estabilizadas em termos de consumo. As indústrias, por isso, não têm como ampliar a produção, e os investimentos para efeito de mercado interno se reduzem à área tecnológica. O quadro se tornou ainda mais grave neste momento de crise.
A sobrevivência dessas indústrias depende cada vez mais dos mercados emergentes, que concentram dois terços da população mundial e precisam desesperadamente aumentar o nível de produção e de consumo. Os países melhor situados entre os emergentes são os candidatos naturais a receberem esses investimentos, que ocorrem quase sempre dentro de um horizonte de tempo maior. Mas a oferta de uma boa infraestrutura é um dos principais diferenciais de atração.

         Metal Mecânica - Os Brics - Brasil, Rússia, Índia, China e em parte a África do Sul - seriam estes candidatos? Mas em todos eles a infraestrutura é ainda deficiente, embora a China esteja investindo muito nessa área.
Nogami - Sim, são esses os candidatos que poderíamos chamar de naturais. E dentre eles o Brasil é o melhor situado, o que apresenta risco operacional menor. A Rússia assusta porque está ainda sob um regime totalitário ou quase isto, e a China - mesmo crescendo 9% ao ano - também não é muito confiável nesse aspecto. A Índia tem pouquíssima mobilidade social e por isso um mercado interno ainda pouco significativo. E a África do Sul ainda é o peso leve entre os grandes emergentes. Mas a infraestrutura brasileira joga contra o país. Cria dúvidas nos investidores.

         Metal Mecânica - Posto isso, a única saída seria o governo começar a realmente tirar do papel os seus programas de ampliação da infraestrutura, não?
Nogami - Sem dúvida nenhuma. Se o governo pelo menos realizasse de maneira efetiva parte dos projetos PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, já ajudaria muito. Em infraestrutura, o pouco que é feito tem repercussão imediata. O país já poderia comemorar um crescimento superior a 4% em 2013 ou 2014 e acima de 6% daqui a cinco anos - e em uma base auto-sustentável. 
Fala-se muito no Brasil do modelo econômico chinês, com a sua forte presença indutora do estado, o estímulo à poupança interna, o foco no desenvolvimento da tecnologia - seja de maneira elogiosa ou de maneira crítica - mas quase nunca se diz que a China deve ser hoje um dos países que mais investe em infraestrutura. A China já faz alguns anos é um canteiro de obras. Essa é uma das razões do seu fantástico crescimento. Isto, o Brasil não deveria ter dúvidas em copiar.

         Metal Mecânica - O cenário de 2012 também será de crescimento lento para o setor de bens de capital?
Nogami - A tendência é de crescimento nos próximos dois anos, por causa da necessidade do setor de ampliar a capacidade de produção. Segundo o relatório Focus, do Banco Central, a produção industrial como um todo subirá de 2% para 3,9% em 2012. E os modelos matemáticos demonstram que o segmento de média e alta tecnologia tende a crescer com 40% de certeza.
O problema para a indústria nacional de máquinas e equipamentos é que não é competitiva em vários segmentos, seja em preço, seja em tecnologia, e parte da demanda deverá ser suprida pela importação. Como já vem ocorrendo há alguns anos, aliás. Na indústria de moldes e matrizes, por exemplo, o domínio da Alemanha, Portugal e Espanha hoje é quase absoluto. A China e outros países da Ásia Oriental já atendem também boa parcela da demanda de máquinas operatrizes em geral.
Historicamente, a cada 1% de crescimento do PIB, a importação de bens de capital no Brasil cresce 0,97%. E sobe 1,3% a cada 1% de aumento na produção doméstica de bens de capital. Identifica-se aí facilmente uma dependência das importações. O quadro só mudará quando o setor reverter a defasagem tecnológica recorrendo mais a parcerias com universidades e institutos de pesquisa, o governo cumprir sua parte na infraestrutura e os encargos do Custo Brasil forem reduzidos. (Alberto Mawakdiye)

 
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