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Rússia para de fabricar o fuzil Kalashnikov AK-47

Fuzil de assalto mais fabricado de todos os tempos, o lendário Kalashnikov AK-47, o preferido dos exércitos da extinta Cortina de Ferro, dos países do antes chamado Terceiro Mundo e da maioria dos grupos guerrilheiros e terroristas do planeta deixou no último mês de outubro de ser comprado pelo Ministério da Defesa da Rússia, o país onde ele foi criado em 1947, logo após o final da Segunda Guerra Mundial.

Segundo o chefe do Estado-Maior russo, general Nikolai Makarov, o país já tem armas demais desse tipo em seus arsenais, em um tempo em que essa geração de fuzis deixou de responder às exigências atuais de combate. Por isto, as encomendas não serão renovadas. De acordo com Makarov, o AK-74 série 100 - o último modelo de fuzis Kalashnikov - será substituído por uma arma mais leve e moderna.
         A fábrica de Izhevsk, a cidade onde são fabricados os Kalashnikov, já anunciou, inclusive, que no final deste ano estará pronta a nova arma com as exigências e as características pedidas pelo Ministério da Defesa. O novo fuzil provavelmente também deverá chamar-se Kalashnikov, mas apresentará desenho e performances inteiramente distintos do seu famoso antecessor.

         O substituto do AK-74 100 não só será destinado ao exército russo, como também à exportação. Os Kalashnikov ora em uso, entretanto, não serão aposentados. A substituição dos fuzis existentes será feita aos poucos, já que estarão em boas condições por mais 15 ou 20 anos. Na verdade, a série 100 do AK-74 é hoje fabricada principalmente para venda fora do país. Dentro da Rússia, já estava sendo enviada, apenas, para as tropas reservadas do Ministério do Interior e às forças especiais.

Os motivos que levaram o governo russo a desenvolver um substituto para o AK-74 são para lá de justificáveis. O fuzil é famoso por sua grande rusticidade, pela facilidade e rapidez de produção em massa, simplicidade de operação e manutenção, além da imensa confiabilidade - é lendária a sua resistência ao calor e ao frio, à água, areia e lama. Ele praticamente nunca emperra. Mas a triste realidade é que se tornou algo mambembe demais para os cenários da guerra moderna.
Criado nos albores da Guerra Fria, o Kalashnikov foi concebido para ser uma arma para guerras de grande escala, com mobilização das forças de reserva - daí a sua facilidade de produção e de operação. Hoje, as forças armadas se orientam para operações militares reduzidas em conflitos regionais, quase sempre desenrolados em tempos de paz, que exigem fuzis com grande precisão à distância (o AK-74 tem um raio de ação eficaz de apenas 300 metros), operação relativamente silenciosa e desenho ergonômico - características que não estão presentes na velha arma.

Além de ser muito barulhento e extremamente pesado na comparação com concorrentes modernos - o fuzil pesa, em média, 4,3 quilos, e isto sem o carregador de munição, que pode conter 20, 30 ou 90 cartuchos - o Kalashnikov contém muitas partes móveis, o que prejudica a precisão de disparo mesmo em distâncias curtas. É lento e desconfortável, exigindo grande esforço para operar com luvas, e o ferrolho permanece fechado após o último tiro. Estas desvantagens, presentes no AK-47 original, jamais foram corrigidas nos modelos posteriores. É um fuzil mais adequado para troca de tiros intensa, em situações que demandam mais a potência de fogo.

Disseminação - De qualquer forma, mesmo com a sua retirada de linha de produção na Rússia, é cedo ainda para se dizer se a carreira do Kalashnikov está chegando ao fim. Provavelmente ainda não, talvez por décadas. Até pela simples quantidade de AK-47 existentes. Estima-se que o número de exemplares produzidos tanto na Rússia como fabricados sob licença ou não em países que foram ou ainda são comunistas como a Bulgária, Polônia, China, Hungria, Albânia, Coréia do Norte e Romênia, além de vários outros como Índia, Egito e Iraque, chegue à impressionante cifra de 90 milhões. Boa parte deles ainda está em uso. Em muitos destes países a produção será certamente continuada, pois os russos forneceram toda a tecnologia necessária para tanto.

Diversos países, como a Finlândia e Israel, também se basearam no projeto deste fuzil para produzirem os modelos mais usados por seus exércitos. O fuzil também pode ser encontrado em mãos de grupos terroristas devido ao seu baixo preço e facilidade de aquisição no mercado negro.
Não à toa, o Kalashinikov é também, segundo o Guiness Livro do Recordes, a arma de fogo atualmente mais utilizada no mundo. É tão respeitado que se trata da única arma a figurar no desenho de uma bandeira nacional, a de Moçambique, na África, cuja independência se deve em boa parte ao uso intensivo do AK-47 pelo movimento guerrilheiro dos partidários de Samora Machel nos anos 1960 e 70.

A ironia da história toda é que o criador do AK-47, um ex-recruta do Exército Vermelho que chegou a general, Mikhail Kalashnikov (foto de 1996), hoje com 91 anos e bastante enfermo, não sabe que a sua arma saiu da linha de produção na Rússia. Ninguém teve coragem de lhe contar. “Não quisemos ter sobre nós essa responsabilidade. Ouvir isso poderia matá-lo”, como disse um parente de Kalashnikov ao jornal “Izvestia”.

         Seria outro dissabor para este lendário inventor. Apesar de ter sido um dos principais produtos de exportação da ex-União Soviética e uma de suas grifes mais conhecidas, o fuzil AK-47 jamais chegou a ser patenteado. Cerca de 90% dos fuzis Kalashnikov que são produzidos no mundo são falsos, pois fabricados sem autorização ou com licenças vencidas. A marca Kalashnikov só foi registrada no Escritório Internacional de Patentes, na Suíça, em 1998. O inventor da arma jamais ganhou um centavo por sua criação. (Alberto Mawakdiye)


             

 
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